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Entrevista - Bruno Crivilin

há 7 minutos
6 min de leitura


Imparável é talvez a melhor palavra para definir o capixaba Bruno Crivilin. Ainda quando piloto no enduro, ele dominou durante anos o Campeonato Brasileiro, colecionando 14 títulos, sendo 6 na principal categoria. E nas suas participações na equipe brasileira no Six Days, se tornou o maior medalhista brasileiro, com quatro de medalhas ouro e duas de prata.


Partiu para um dos maiores desafios: competir no Mundial de Enduro, onde novamente conquistou grandes resultados, sendo o melhor o sexto lugar na categoria E1. Após dominar o enduro nacional, decidiu enfrentar outro enorme desafio, de se transferir para o rali, onde conquistou vitórias já em seu primeiro ano na modalidade. E nesta sua segunda temporada, mais glórias: lidera o Brasileiro de Rally e foi convocado para integrar a equipe internacional da HRC Rally, onde, apesar de quase nenhum contato com a moto e a equipe novas, venceu uma etapa e finalizou a prova argentina do Mundial no segundo posto. E acaba de vencer seu primeiro Sertões.


Diante de tudo isso, novamente ele ganha um espaço especial na Dirt Action. Aliás, ele deve ser um dos pilotos brasileiros mais entrevistados pela nossa equipe, pois, como disse, ele é imparável, independente da modalidade. Confira a seguir mais uma boa conversa com o capixaba Crivilin.


DA – Você conquistou o Sertões na sua segunda participação na prova. Havia a expectativa de vencer neste ano?

CRIVILIN – Esse foi meu segundo Sertões como piloto, mas minha preparação começou bem antes. Em 2023, acompanhei a prova como RedRider, pilotando uma Africa Twin, para conhecer a prova e entender sua dinâmica. No ano seguinte, em 2024, fui de apoio e acompanhei de perto o Darinho (Dário Júlio Lopes), nosso chefe de equipe, dando apoio e vivendo o Sertões por dentro, observando os pontos de abastecimento, as dificuldades enfrentadas pelos pilotos e tudo o que poderia acontecer.


Em 2025, finalmente integrei a equipe de rali como piloto. Infelizmente, sofri uma queda no quarto dia e precisei abandonar. Por isso, considero 2026 o meu primeiro Sertões completado de fato, o primeiro que consegui finalizar.


Sobre expectativas, eu sempre penso que a vitória é possível, mas evito criar grandes expectativas. Elas podem ajudar, mas também atrapalhar muito. Prefiro focar no que precisa ser feito, sem me prender à ideia de que tenho que vencer.


E foi incrível conquistar o título logo na primeira edição que concluí. Além de manter a vitória com a Honda, conseguimos trazer de volta um brasileiro ao topo depois de quatro anos, desde 2022, com o Bissinho. Foi uma alegria enorme e uma conquista muito especial para mim.


da - Seu último dia na prova foi complicado. Como se sentiu naquele momento, com a quebra da sua moto e a dúvida se terminaria o Sertões?

O Sertões reservou para mim o último dia como o mais difícil. Era a especial mais curta, mas como a própria organização dizia: “você não ganha o Sertões no último dia, mas pode perder nele”. E por um instante achei que iria perder.


Ninguém esperava o que aconteceu. Uma vaca entrou na pista e me atingiu pelo lado direito. Saí da estrada, bati de frente em uma árvore e o radiador de óleo da moto quebrou, vazando todo o óleo do motor. Ainda consegui rodar cerca de 20 quilômetros, até acabar o óleo e a moto parar de vez.


Mas, antes da largada, meu companheiro de equipe na Monster Energy Honda HRC, o Martim Ventura, tinha me dito: “vai tranquilo que eu estou por você agora, a gente vai chegar”. Esse gesto fez toda a diferença. Quando a moto parou, ele me rebocou pelos últimos 80 quilômetros da especial.


Não sei se cheguei a pensar “não vou vencer”, porque sabia que tinha amigos ao meu lado. Mas foi, sem dúvida, um dos momentos mais intensos da minha carreira. Aqueles 80 quilômetros rebocado foram os mais longos da minha vida, cheios de pensamentos, emoções e superação.


da - Seu companheiro de equipe, o português Martim Ventura, foi importante nessa conquista. Pensou que essa ajuda poderia mesmo acontecer?

O Martim realmente se mostrou grandioso, não só como piloto, mas como ser humano. Eu não imaginava que algo assim pudesse acontecer durante a prova, não exatamente ele me rebocar, mas a situação de eu ter problemas na moto e precisar parar, precisar de ajuda. Fiquei surpreso e, ao mesmo tempo, não tanto, porque já conhecia um pouco sobre ele. Tenho muitos amigos em comum em Portugal e todos sempre falaram muito bem dele.


Tenho certeza que eu faria o mesmo por ele ou por qualquer outro companheiro de equipe se estivesse na posição dele durante a corrida. Esse espírito de união é fundamental no rali.


Mas o fato é que o meu título de 2026 não teria acontecido sem o Martim Ventura. Ele foi decisivo naquele momento e só tenho a agradecer por tudo que fez.


da - Apesar das dificuldades, esta temporada tem sido boa para você. Está liderando o Brasileiro, integra também a equipe Monster Energy Honda HRC, participou no Mundial de Rally, vencendo uma etapa, e agora o Sertões. Esperava tantas realizações neste segundo ano na modalidade?

Sim, este ano tem sido realmente muito especial para mim no rali. Em 2025, optei por disputar tanto o Campeonato Brasileiro de Enduro quanto o Brasileiro de Rally, o que me fez dividir bastante o foco. Ainda assim, fui competitivo nas duas modalidades: conquistei o título do Brasileiro de Enduro e cheguei a liderar o Brasileiro de Rally na Geral, mas alguns acontecimentos acabaram me tirando da disputa pelo título.


Já em 2026, decidimos que eu iria me dedicar 100% ao rali. Foi então que surgiu a oportunidade de integrar a Monster Energy Honda HRC, a equipe oficial da Honda no Mundial de Rally. A partir daí, tudo foi acontecendo muito rápido e de forma muito positiva.


Hoje estou liderando o Brasileiro, com quatro vitórias em cinco provas disputadas. No Mundial, logo na estreia com a HRC, consegui vencer uma etapa e terminar a prova como vice-campeão. É impressionante como tudo tem acontecido em tão pouco tempo, mas isso é fruto de muito trabalho, planejamento e de contar com os melhores materiais e profissionais ao meu lado.


Claro que fico surpreso com a rapidez das conquistas, mas quando paro para pensar, vejo que nada é por acaso, trabalhamos de forma consistente e correta para que esses resultados apareçam.



da - E como se comportou sua Honda durante o Sertões?

Minha Honda CRF 450RX Rally é uma moto desenvolvida especialmente para o rali. A Honda produz apenas 50 unidades por ano para o mundo inteiro e, apesar das poucas unidades disponibilizadas, é uma moto “de linha”, qualquer pessoa pode ter acesso a ela.


Durante os mais de 4 mil quilômetros do Sertões, ela se mostrou impecável, resistente, rápida e extremamente segura. Não tive absolutamente nenhum problema mecânico. No último dia, o incidente que sofri, quando bati em uma árvore, não foi por falha da moto, mas sim consequência do acidente. Inclusive, ela ainda rodou cerca de 20 quilômetros sem óleo, o que mostra o quanto é confiável e robusta.


É o meu primeiro ano competindo com essa moto e posso dizer que é perfeita para o rali no Brasil. Além de garantir a segurança do piloto, transmite a confiança de que vai terminar a prova sem te deixar na mão. Só tenho elogios para ela.


da -Além do Brasileiro, participará em mais algum evento neste ano?

Sim, ainda tenho compromissos importantes. Inclusive, estou viajando agora para Portugal, onde vou realizar alguns dias de treinamento com o Martim Ventura. Logo depois, seguimos para o Marrocos para treinar com toda a equipe, já nos preparativos para a etapa do Mundial que acontece no final de outubro.


Então, além dessa prova do Mundial no Marrocos, volto ao Brasil para a final do Campeonato Brasileiro de Rally, o Sertões Series São Paulo, e depois sigo de volta para Abu Dhabi, para a última etapa do Mundial de Rally. Esses compromissos fazem parte da minha preparação para o Dakar em janeiro, que já está no calendário de 2027.


da - Você competiu durante anos no enduro, onde conquistou inúmeros títulos e integrou por muitos anos a equipe brasileira no Six Days, que neste ano comemora 100 anos. Mas não teremos uma equipe nessa prova. O que pensa sobre isso?

Corri praticamente minha vida inteira no enduro, e este ano é o primeiro que estou afastado da modalidade. Desde 2017, participei de quase todas as edições do Six Days representando a Seleção Brasileira, fiquei fora apenas uma vez. Por isso, é realmente uma pena não termos uma equipe neste ano tão simbólico, em que a competição completa 100 anos, ainda mais sendo realizada em Portugal, onde já corremos em 2019.


Entendo, no entanto, que o momento é difícil. O custo é muito alto. Desde que o novo presidente, Gustavo Jacob, assumiu a Confederação Brasileira, sei que tem trabalhado bastante para viabilizar a participação do Brasil no Six Days e tem ajudado muito os pilotos.


Desde que ele assumiu, a CBM tem se mostrado muito viva em todas as modalidades do motociclismo, não apenas em uma. Se eu pudesse, com certeza estaria lá. Mas neste momento o meu foco está totalmente voltado para o Mundial e para a preparação para o Dakar, e não posso correr riscos.


Ainda assim, espero que nos próximos anos o Brasil volte a ter uma Seleção no Six Days. E não apenas uma equipe presente, mas uma equipe competitiva. Torço para que a gente tenha pilotos de alto nível, capazes de brigar por bons resultados.


Fotos Victoria Kimie/Mundoopress


 
 
 

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